Artesãos transformam matéria-prima em arte

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Em Limoeiro do Norte, Maria do Macacos e João Brota mostram seu talento fabricando peças a partir do coco e carnaúba

Limoeiro do Norte. Coqueiro e carnaubeira. São estas plantas comuns em qualquer interior nordestino as principais matérias-primas de artesãos deste município, no Vale do Jaguaribe. Eles transformam a madeira bruta de um galho ou coco seco em arte já conhecida por todo o Estado. Um faz ornamentos e utensílios domésticos com o talo da carnaúba; a outra, mais peculiar, transforma a matéria rústica morta do coco seco em macacos espertos e multifacetados. Além do talento, os artesãos João Brota e Maria dos Macacos têm em comum a dificuldade cotidiana de quem precisa viver da arte, mas, pela necessidade, vende as criativas peças por preços irrisórios. Transformam o trabalho em arte-sobrevivência.

Em Limoeiro, quem precisa limpar sítio, fazenda ou o quintal de casa chama Maria Rodrigues. Mas ela pede um favor: Que lhe permita levar uns cocos para casa. Com uma matéria-prima um pouco mais peculiar que as outras, o coco seco, Maria “dos Macacos” Rodrigues, de 49 anos, recebe o nome do resultado da lapidação da matéria morta. Os macaquinhos conquistaram o Ceará. Dona de uma técnica invejável, personaliza cada obra, com macacos namorando, bebendo em mesa de bar, tocando tambor, ou na “lei do silencio” – não fala, ouve, nem vê.

“Do coco não se perde nada”, afirma a artesã, aproveitando tudo que é de pedaço do produto para adornar suas obras. Todos os acessórios dos macacos provêm do coqueiro, “até um abajur lindo de se ver, que aproveito do bagaço da planta”, conta. Os macacos de Maria já viajaram pelo Brasil, mas é no Vale do Jaguaribe que tira a venda para o sustento. Por alguns anos, vendia na Beira-Mar, em Fortaleza, mas não deu certo.

A poucos metros de Maria dos Macacos mora um senhor franzino, voz acanhada, que passa o dia “enfiado” num quarto fiando e desfiando talos de carnaúba sempre com o rádio ligado num “brega” ou nas famosas cantorias populares. João Brota da Silva se sustenta na carnaúba, ou melhor, no que suas mãos transformam a madeira rústica da carnaubeira. Todo dia, e o dia inteiro, faz utensílios domésticos, como baús, cadeiras, bancos, porta-chaves, cestas para café da manhã, e ornamentos, como miniaturas de casas, de carroças, porta-retratos.

No período seco, João Brota vai para o meio dos matos pegar talos de carnaúbas verdes. Chegando em casa, deixa um dia de molho na água, depois desfia completamente e põe para secar ao sol. É assim que seu ateliê é cheio de fios de talos de carnaúba pelas paredes, chão, esperando virar arte.

Um baú de 50 litros é feito completamente num único dia, da primeira fiação de madeira à última martelada e pincelada de verniz. Para vender, João Brota coloca tudo na garupa da bicicleta e pedala para Russas, Tabuleiro do Norte, Quixeré, “onde der para ir de bicicleta eu vou. Quando é mais longe, pego uma carona com os amigos, boto as peças em cima do carro e só volto quando vender todas”, afirma o artista – o único momento em que não trabalha é no dia de Santa Luzia, protetora dos olhos.

Via Diário do Nordeste

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