Água de coco faz carreira de sucesso no exterior

0
194

Novas embalagens dão vida longa à bebida, que vira pop e conquista o mercado internacional

Desde que estrelas internacionais como Madonna, Rihanna e Demi Moore confessaram publicamente seu vício em água de coco brasileira, no verão de 2010, a bebida mais popular das praias do país ganhou o mundo. Saudável, saborosa e refrescante, a água de coco caiu no gosto dos consumidores dos Estados Unidos e da Europa. Por aqui, esse sucesso está multiplicando os lucros no campo e gerando oportunidades em toda a cadeia produtiva. É verdade que o aval das celebridades ajudou, mas o que deu vida nova ao coco – e vem sustentando sua promissora carreira internacional – foi a introdução de tecnologias para conservação e novas embalagens para a água. Isso garantiu a sanidade do produto e aumentou sua durabilidade. Também provocou uma reviravolta no setor, especialmente para quem mantém lavouras destinadas à produção de água. As embalagens em pet (plástico), alumínio ou Tetra Pak, em volumes que vão de 280 mililitros a um litro, criaram novas perspectivas para o produto. Hoje, a água de coco, totalmente natural, já pode ser consumida até 30 dias após seu envasamento, desde que conservada a temperaturas entre 1°C e 4°C. Em alguns casos, com a adição de conservantes, a validade chega a um ano.

Com isso, empresas brasileiras que tradicionalmente trabalhavam com leite ou coco ralado passaram a apostar no comércio da água, inclusive para exportação, o que colocou o Brasil na posição de maior produtor mundial da bebida. No país, a área de cultivo de coqueirais já soma 290 mil hectares, distribuídos entre as variedades gigante, anão e híbrido (cruzamento entre gigante e anão), e a produção caminha para 3 milhões de toneladas, ou cerca de 1,2 bilhão de cocos.

0,,57772989,00

No Ceará, terceiro maior produtor do país, são cultivados mais de 47 mil hectares de coqueirais – boa parte irrigada e destinada à produção da água tanto para atender à demanda nacional, que se situa em cerca de 350 milhões de litros por ano, como para fazer frente à crescente demanda do mercado internacional, que cresce a uma taxa de 20% ao ano. As exportações para os EUA devem fechar o ano em cerca de 24 milhões de litros, com previsão de alcançar 40 milhões de litros em 2012. “O mercado americano é tão promissor que estamos à procura de mais terras para comprar”, diz Fernando Vaz, gerente de produção da Paragro, de Paraipaba (CE), que cultiva 500 hectares. A empresa também exporta água de coco para a Alemanha, além da polpa de coco verde, usada em misturas para fabricação de sucos, drinques e sorvetes.

0,,57773026,00

Um dos fornecedores da Paragro é o ex-aviador português Armando Luís Barata, que cultiva 70 hectares. Ele optou pelo coco por três razões: o coqueiro não requer muitos cuidados, produz todos os meses do ano e tem mercado assegurado. “O futuro do coco está garantido, porque ele é um alimento completo e saudável”, diz. Barata tem uma das maiores áreas cultivadas do país com coco orgânico certificado pelo Instituto Biodinâmico (IBD). O produto orgânico tem valor 30% maior que o do produto convencional e demanda em alta. “Recebi propostas para exportar para Alemanha, Itália e Portugal, mas meu foco é o cultivo, que tem sido uma maneira interessante de envelhecer”, brinca. Os planos do produtor são elevar em 40% a produção atual, de 1 milhão de cocos ao ano, até 2013.

0,,57773027,00

O empresário Laerte Gurgel, da Cohibra, que trabalha com melhoramento genético e produção de mudas em Amontada (CE), garante que o país vai ter de acelerar o investimento na lavoura para acompanhar o crescimento previsto de 18% ao ano para o mercado de água de coco. “Nesse ritmo, os atuais 60 mil hectares plantados no Brasil com coco-anão (indicado para produção de água), que colocam o país na posição de maior produtor mundial, terão de se multiplicar nos próximos cinco anos e chegar a 300 mil hectares até 2020”, prevê Gurgel.

Com a experiência de quem se dedica há décadas à produção e ao melhoramento de coco, Gurgel tem uma convicção – o coco é a bola da vez para o Brasil. “Daqui a 20 anos, o coco será uma commodity (produto com preço cotado no mercado mundial) igual à soja ou milho”, avalia. E o Brasil, segundo ele, terá papel de destaque nesse mercado, pois tem potencial para se tornar o principal produtor mundial de coco, superando países como Indonésia, Índia, Filipinas e Sri Lanka, considerados os maiores produtores mundiais. Isso porque os coqueirais desses países estão estagnados, devido à baixa produtividade e ao fato de estarem envelhecidos.

0,,57773028,00

No Ceará, são cultivados 47 mil hectares de coqueirais

Em função desse cenário de estagnação na produção mundial, Gurgel acredita que o preço do coco tende a se valorizar nos próximos anos. Hoje, o mercado brasileiro já remunera bem e paga R$ 1 por unidade retirada na propriedade, valor quase seis vezes maior que o registrado em 2007, quando o mercado pagava R$ 0,15 pela fruta. No caso do óleo de coco – muito utilizado na química fina e nas indústrias farmacêutica, de cosméticos e de alimentos –, ele avalia que o aumento pode chegar a 500% nos próximos cinco anos. “A indústria que consome o óleo está concentrada principalmente nos EUA e não pode prescindir das qualidades desse produto, rico em ácidos láuricos, que tem efeitos benéficos à saúde”, explica. Ele avalia, no entanto, que no curto prazo o grande crescimento será representado pela água de coco, que já disputa uma fatia de mercado com sucos, refrigerantes e bebidas isotônicas. “Em 2010, de um mercado de 10 bilhões de litros de refrigerantes e isotônicos consumidos no Brasil, a água de coco teve participação de 3,5%. Cinco anos atrás, o produto representava apenas 1,4%”, observa Gurgel. Não é de hoje que Gurgel acredita no futuro do coco. Há 25 anos, ele se associou à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) de Sergipe e a especialistas franceses para criar variedades de coqueiros que pudessem dar o suporte adequado ao setor – plantas que ao mesmo tempo tivessem boa produção de água e de óleo, além de combinar a precocidade do coqueiro-anão com a rusticidade da planta gigante (coqueiro-de-praia). Desde então, utilizando material genético proveniente da Ásia e da África, foram sendo obtidos coqueiros híbridos cada vez mais produtivos e resistentes.

0,,57773031,00

Agora, Gurgel avalia que chegou ao ponto desejado: 12 cultivares de coco híbrido em breve estarão à venda no mercado. As sementes produzidas por Gurgel já têm mercado certo e são bem pagas: um quilo de pólen de coqueiro da Cohibra – quantidade que apenas três plantas podem produzir em um ano – chega a custar R$ 5 mil. “É a recompensa por muitos investimentos realizados em conhecimento e tecnologia”, comemora Gurgel.

“Até bem pouco tempo atrás, o coco vinha sendo cultivado praticamente da mesma forma como quando chegou ao Brasil, na época da colonização. Mas isso está mudando radicalmente com o interesse das empresas multinacionais no negócio”, pondera Gurgel. “E a água hoje é que lidera a expansão do setor”, afirma o gaúcho Adelino Martins, controlador da Terra Brasil, instalada em Trairi (CE), que comercializa a marca Vitcoco em todo o país. A água de coco já recebe o mesmo processamento industrial, utiliza as mesmas embalagens e tem tratamento de marketing semelhante ao reservado aos sucos, refrigerantes e isotônicos, disputando espaço com as demais bebidas nas gôndolas dos supermercados e lojas de conveniência. E isso não acontece só no Brasil, mas em países como os EUA, onde é comercializada em cerca de 20 mil pontos de venda. Lá, o mercado de bebidas não alcoólicas movimenta US$ 90 bilhões por ano. O aumento das exportações brasileiras ajuda a trazer novos investimentos para o setor.

0,,57773094,00

Madonna gostou tanto da água de coco que virou investidora da Vita Coco

Na Ducoco Alimentos, a água de coco já superou produtos tradicionais como o leite e o coco ralado. “Esse mercado deu um salto gigantesco de uns três anos para cá, principalmente com a abertura do mercado americano”, comenta Mário Vital Domingues, diretor de operações. Ele diz que, desde 2009, a demanda por água de coco nos EUA dobra a cada ano. Segundo Domingues, a inclusão dos americanos entre os apreciadores do produto permitiu elevar as exportações da empresa de 5% do volume da produção total, em 2009, para 30%.

“Antes, o coco era consumido nos EUA apenas por latinos ou imigrantes asiáticos, mas isso mudou completamente”, observa. Para atender à nova demanda, a empresa investiu R$ 10 milhões na ampliação da planta industrial de Itapipoca, que hoje envasa 100 toneladas de água de coco por dia. Do total exportado, 80% têm como destino os EUA. Algumas empresas já nasceram inteiramente dedicadas à produção de água de coco. Caso da Paragro, que processa mensalmente 1,7 milhão de litros de água – dos quais 1,5 milhão seguem para os EUA com a marca Vita Coco, que tem entre seus investidores as estrelas Madonna e Demi Moore.

0,,57773095,00

O português Armando Luis Barata mantém no Ceará uma das maiores áreas de coco orgânico do Brasil

A PepsiCo, gigante do setor de alimentos, está investindo R$ 150 milhões numa nova unidade industrial para ampliar a produção de água de coco. Em 2009, a multinacional comprou a Amacoco, empresa que era associada à Sococo.

“Conseguimos um produto tão confiável que hoje é consumido e vendido até em hospitais”, garante Demóstenes Frota, sócio da Natu Coco. Para Francisco de Paula Domingues Porto, presidente do Sindicato Nacional dos Produtores de Coco do Brasil (Sindicoco), o futuro da água de coco é mais promissor que o do coco seco ou ralado.

Vencedora do prêmio Melhores do Agronegócio 2011 na categoria alimentos básicos, concedido pela revista Globo Rural, a Sococo prefere manter seu foco no consumidor brasileiro, segundo Emerson Tenório, diretor presidente da companhia. O carro-chefe da empresa é a água. Hoje, a Sococo detém 53% do mercado brasileiro, com vendas de 36 milhões de litros por ano.

O óleo que emagrece

A produção mundial de óleo de coco oscila em 3,3 milhões de toneladas. Usado na indústria para a produção de velas, sabonetes finos, margarinas e biodiesel, o óleo de coco é um produto caro e tem demanda aquecida, em virtude de suas propriedades funcionais. Rico em proteína, gordura, sais, hidratos de carbono e vitaminas, ele regula a função intestinal, reduz o mau colesterol, melhora o sistema imune e a absorção de nutrientes, eleva a energia, é antioxidante e ajuda a emagrecer. Recentes estudos científicos indicam que seu consumo regular ajuda a evitar o mal de Alzheimer. “Ele também é muito usado como óleo de freio de avião, pois não congela e suporta qualquer temperatura”, diz Francisco de Paula Domingues Porto, presidente do Sindcoco. O Brasil ainda não produz óleo de coco e importa o que consome da Ásia e da África. Na avaliação de Porto, os custos de produção são altos e a concorrência com países asiáticos e africanos inviabiliza a produção no Brasil. “Nesses países, a mão de obra é quase gratuita, pois há exploração da miséria”, diz. O óleo de coco é produzido das variedades de coco-gigante e híbrido. O rendimento de uma plantação bem assistida alcança 2,5 mil quilos por hectare ao ano e o valor da tonelada chega a US$ 300 no mercado internacional, o que pode atrair novos investimentos brasileiros para esse segmento.

Uma experiência natural

 

0,,57773096,00

Boa parte do dinamismo da cadeia do coco se deve ao mineiro Rodrigo Veloso (foto), que teve atuação decisiva na abertura do maior mercado do mundo, o americano, para o produto brasileiro. A saga de Veloso alia senso de oportunidade a obstinação e teve início no ano de 2005, quando ele desenvolveu um plano de negócio de reaproveitamento de rejeitos da indústria de alimentos na fabricação de bebidas, como a água de coco. A tese do empresário foi muito bem recebida no meio acadêmico, o que o animou a tirá-la do papel. Com um capital inicial de US$ 150 mil, ainda em 2005, ele desembarcou em Los Angeles, na Califórnia, disposto a desbravar o mercado dos Estados Unidos para a água de coco.

Em 2010, a empresa que ele fundou, a O.N.E. (Uma Experiência Natural, em inglês), já estava faturando cerca de US$ 40 milhões e vendendo seus produtos na segunda maior rede varejista dos EUA. Naquele mesmo ano, a PepsiCo, gigante mundial do setor de alimentos, adquiriu a maior parte das ações da O.N.E., confirmando definitivamente o acerto da tese de Rodrigo Veloso: a água de coco poderia ser realmente um grande negócio.

Fonte: http://www.fenacoco.com.br

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui